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Dermatite Seborreica: o que é e como afeta a pele

A dermatite seborreica é uma condição inflamatória crónica da pele, caracterizada por vermelhidão (eritema), descamação oleosa e prurido (comichão). As áreas mais afetadas são geralmente as zonas ricas em glândulas sebáceas, como o couro cabeludo, a zona T do rosto, as sobrancelhas, a zona atrás das orelhas, o tórax e a parte superior das costas. Embora seja comum em adolescentes e adultos jovens, pode surgir em qualquer idade, inclusive em bebés (conhecida como crosta láctea) e em idosos, com a incidência a aumentar após os 50 anos. Estima-se que a prevalência global esteja próxima dos 4,83%. No entanto, este número poderá ser substancialmente superior, já que muitas pessoas optam por não procurar ajuda médica ou iniciam automedicação, mascarando os sintomas.

O que causa a dermatite seborreica?

Durante muito tempo, o fungo Malassezia spp. foi considerado o principal responsável. Hoje, sabe-se que a condição pode estar associada a um desequilíbrio do microbioma da pele, envolvendo também bactérias como Cutibacterium spp. e Staphylococcus spp.

Além disso, fatores como aumento da oleosidade, alterações na barreira cutânea, níveis elevados de histamina (que causam prurido), stress, alterações hormonais, clima quente e húmido, tratamentos capilares agressivos, alguns medicamentos e até o estilo de vida podem agravar ou desencadear a doença.

 

Sintomas e impacto da dermatite seborreica

A descamação esbranquiçada ou amarelada, acompanhada de vermelhidão, oleosidade e comichão intensa, caracteriza o quadro clínico típico. Por outro lado, a gravidade varia de formas leves e discretas até quadros moderados a graves, com maior inflamação e desconforto.

No couro cabeludo, pode associar-se à queda temporária de cabelo. Somado ao impacto estético, este fator contribui para reduzir a qualidade de vida das pessoas afetadas.

Tratamento: opções médicas e cuidados diários

O tratamento depende da gravidade e da zona afetada. Inclui geralmente:

  • Champôs e cremes antifúngicos, para reduzir a proliferação da Malassezia;
  • Anti-inflamatórios tópicos (corticosteroides ou inibidores da calcineurina);
  • Tratamento oral, em casos persistentes ou graves;
  • Cuidados cosméticos adequados, para manter a barreira cutânea equilibrada.

Assim, o tratamento deve ser sempre individualizado. Higienizar a pele de forma adequada, evitar produtos oclusivos ou irritantes, controlar o stress e adaptar a rotina aos períodos de crise e remissão são medidas essenciais.

Diagnóstico diferencial

A dermatite seborreica pode ser confundida com outras doenças dermatológicas como psoríase, eczema seborreico, rosácea ou algumas formas de alopecia. Por isso, o diagnóstico correto é essencial para garantir um tratamento eficaz.

Entrevista com Ana Alexandre: Viver com Dermatite Seborreica

Para nos ajudar a compreender melhor esta condição, contamos novamente com a experiência e conhecimento da Ana Alexandre Oliveira, licenciada em farmácia e especializada em cosmética e skincare.

Sónia Esteves (SE): Ana, sei que lidas de perto com a Dermatite Seborreica (DS). Como é que a DS impacta emocionalmente a vida de quem vive com ela? Existe um impacto na qualidade de vida?

Ana Alexandre Oliveira (AAO): Existe, e é diferente consoante estamos a falar do rosto ou do couro cabeludo. Passei um inverno inteiro com um nariz cronicamente vermelho, a ouvir piadinhas sobre o quanto tinha bebido naquela manhã, até descobrir que o que tinha era dermatite seborreica no rosto. E isto é a versão simpática da dermatite seborreica. Ter o rosto cheio de peladas é o oposto de divertido, não há uma base que assente bem e parece que estamos cronicamente com pele seca.

No couro cabeludo há o problema eterno daquilo que é a perceção de quem nos rodeia acerca do que a caspa é. Não tem de ser um sinal de que não fazemos uma higiene adequada, eu consigo lavar o cabelo e, assim que o seco, tenho logo descamação notória. No meu caso tive de optar por deixar de fazer procedimentos no cabelo que vão ao couro cabeludo (como alisamentos ou pintar o cabelo) porque o meu couro cabeludo não os suporta. Atualmente sou muito feliz com o meu cabelo encaracolado e os meus cabelos brancos a coexistirem com os castanhos, mas preferia que não tivessem sido decisões que me foram impostas pelo meu próprio couro cabeludo.

SE: A DS aporta um estigma. Qual a tua opinião?

AAO: Tenho pena que em 2025 a sociedade ainda julgue as pessoas pelo seu aspeto, mas é o mundo em que vivemos. E nesse sentido, a descamação do couro cabeludo ou do rosto é sempre tida como sinal de desleixo e de falta de higiene.

SE: A DS pode ser confundida com caspa?

AAO: A caspa é no fundo a consequência da dermatite seborreica. A pele fica irritada a nível o couro cabeludo e começa a descamar. Essas células acabam por ficar agarradas ao cabelo pela oleosidade naturalmente presente em quem tem dermatite seborreica e acabamos por ficar com uma “caspa oleosa” como é geralmente descrita a DS.

SE: A DS é contagiosa?

AAO: Não, até porque estamos a falar de microrganismos que fazem parte da flora comensal da pele. O que acontece aqui é um desequilíbrio no microbioma em que há um crescimento desmesurado de um microrganismo associado a uma maior propensão para sensibilidade do couro cabeludo a substâncias irritantes.

SE: A DS é para a vida ou tem cura?

AAO: No geral é para a vida, em ciclos de agravamento e remissão. Alterações grandes no organismo podem levar a que penda mais para um dos lados do que para o outro (no meu caso a gravidez fez com que praticamente tivesse deixado de ter no rosto, mas continuo a ter imenso no cabelo), e é muito frequente o stress ser um gatilho para crises.

SE: Quais os cuidados essenciais na higiene do couro cabeludo e da pele com dermatite seborreica?

AAO: Tratá-la como uma pele sensível e saber que é provavelmente para a vida. O ideal é usar um champô de dermatite seborreica uma vez por semana, alternado com champôs para couro cabeludo sensível e/ou de uso frequente. Tentar usar champôs exfoliantes do couro cabeludo pode melhorar no imediato na remoção de películas visíveis, mas geralmente resulta em agravamento a curto prazo.

Na pele do rosto acaba por ser semelhante – usar um hidratante de dermatite seborreica pelo menos uma vez por semana, para garantir que as crises não agravam.

SE: Há ingredientes ou formulações cosméticas que são aliados no controlo da dermatite seborreica?

AAO: Sim, praticamente todas as marcas de farmácia têm gamas adequadas a dermatite seborreica no rosto. Quanto ao couro cabeludo, torna-se fácil encontrar soluções em qualquer tipo de marca, desde supermercado, a farmácia ou a gamas profissionais.

Em termos de aliados, a piroctona olamina é um dos típicos ingredientes que auxiliam no controlo, mas existem alguns clássicos como o coaltar.

SE: E quanto aos produtos a evitar: há cosméticos ou rotinas que podem piorar os sintomas?

AAO: Tudo o que seja agressivo para a pele vai agravar a dermatite seborreica. Desde ácidos exfoliantes ou retinóides, a procedimentos como pintar o cabelo.

SE: O uso de maquilhagem é compatível com a dermatite seborreica? Há cuidados especiais a ter?

AAO: Depende muito do estado da dermatite seborreica. Se tivermos uma descamação muito evidente, dificilmente vamos conseguir uma maquilhagem que assente bem, porque a tendência é realçar as zonas onde existe descamação. Idealmente evitar produtos muito matificantes costuma ajudar a controlar esta questão, mas por outro lado as zonas afetadas costumam ser mais oleosas, por isso é uma situação em que é difícil ganhar.

SE: É mito ou realidade que a dermatite seborreica surge apenas em quem tem pele oleosa?

AAO: A Malassezia é um fungo que, em microbiologia, é cultivada em placas com azeite. É um fungo que precisa de gordura para crescer e, portanto, acaba por estar associada a pele oleosa.

SE: Quais são as principais sequelas que esta condição pode deixar na pele e no cabelo?

AAO: O maior problema é quando já estamos numa fase em que já temos crostas que podem levar a feridas. Feridas na pele são uma porta aberta a todos os microrganismos externos dos quais a pele habitualmente nos protege.

SE: Tens produtos favoritos ou recomendações práticas para quem vive com dermatite seborreica?

AAO: Os Ducray Kelual DS são dos produtos que mais recomendo, embora em mim funcionem muito mal. Gosto muito dos Sebodiane da Noreva também e do icónico champô T-Gel da Neutrogena (que atualmente já não cheira horrivelmente mal como cheirava antigamente, mas sabemos que um produto é bom quando cheira mal e continua no mercado).

 

SE: Quando o skincare não chega, que papel têm os tratamentos médicos neste processo? Qual o momento em que se deve procurar apoio médico?

Sendo fúngico, o médico pode sempre entrar com antifúngicos, não só tópicos, mas também orais. Existem ainda alguns complementos que podem ser usados para acalmar a inflamação, e até complementar com isotretinoína para reduzir a produção de sebo na pele e assim controlar a DS.

SE: Para além da cosmética, que outros hábitos ou mudanças de estilo de vida podem ajudar?

AAO: Tratar sempre a pele como uma pele sensível costuma ajudar. Protegê-la de temperaturas extremas e ter uma alimentação equilibrada são sempre um extra.

Entre crises e equilíbrio: aprender a viver com a DS

A dermatite seborreica pode ser desafiante, mas com informação correta, produtos adequados e acompanhamento médico quando necessário, é possível controlá-la e viver melhor. Como partilhou a Ana, cada experiência é única, mas ninguém precisa de enfrentar esta condição sozinho. Informação, cuidados e empatia fazem toda a diferença!

Sugestão de leitura Acne Adulta: Quando a Pele Volta a fazer

Link útil: Sociedade Portuguesa de Dermatologia e Venereologia (SPDV)

Sobre a entrevistada

Ana Alexandre Oliveira é licenciada em Farmácia e fez o Programa Aberto de Especialização em Dermocosmética do CESIF. Trabalha há 10 anos na indústria cosmética e tem como áreas de interesse a proteção solar, aconselhamento cosmético, patologia da pele oleosa e sustentabilidade em cosmética. Escreve no blog The Skin Game há 9 anos e comunica no Instagram no handle @anacbalexandre

Ana Alexandre Oliveira e Sónia Esteves

Bibliografia Dermatite Seborreica

  1. Polaskey MT, Chang CH, Daftary K, Fakhraie S, Miller CH, Chovatiya R. The Global Prevalence of Seborrheic Dermatitis: A Systematic Review and Meta-Analysis. JAMA Dermatol. 2024
  2. Vano-Galvan S, Reygagne P, Melo DF, Barbosa V, Wu WY, Moneib H, Piraccini BM. A comprehensive literature review and an international expert consensus on the management of scalp seborrheic dermatitis in adults. Eur J Dermatol. 2024 Jun 1;34(S1):4-16.